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... e tinha logo de ser a minha Jane Eyre! (snif) Ainda não tinha dado por esta adaptação do Zeffirelli, e aconteceu por mero acaso, num dos canais da TVCine. Bem, a primeira parte ainda vá que não vá. A ida para o orfanato, todo aquele ambiente opressivo e infeliz, está muito credível. A Jane miúda é já, em protótipo, o essencial da Jane jovem mulher. Onde tudo se complica e perde verosimilhança, assim como se perde a complexidade e profundidade das personagens, é depois, a partir do encontro acidentado de Jane com Rochester, como explicarei lá mais adiante.

 

Já coloquei a Jane Eyre a navegar neste rio... uma das personagens femininas mais fascinantes, pelo menos para mim. Uma sobrevivente da aridez da ausência de amor, a maior solidão de todas. A própria autora, Charlotte Brontë, terá vivido essa solidão maior, segundo analistas das suas obras. Para mim, essa solidão é perfeitamente visível na personagem Jane Eyre: a sua timidez aliada a uma firmeza incomum, o seu ar frágil num corpo de criaturinha andarilha, a sua sede de estudo, o seu gosto pelo método e organização, o seu maior trunfo: a afirmação das mulheres num mundo de homens, as expectativas elevadas relativamente ao conhecimento filosófico e científico. A mulher afirma-se no mundo pelo seu trabalho intelectual, pela qualidade do seu trabalho intelectual.

A sua relação com a verdade é mesmo comovente, há essa coragem e autenticidade. Não recorre à sedução, nem a jogos de palavras. Diz o que pensa, mesmo que possa ser mal recebido. Rege-se por um código de valores, o respeito pela dignidade de cada um, é tolerante, o seu olhar não tem o filtro do preconceito. Outra qualidade sua: não é facilmente impressionável pela beleza ou pela riqueza. Não há esse deslumbramento pela ostentação ou pela superficialidade da grande burguesia ou de alguma aristocracia inglesa. O seu olhar é límpido e despojado, embora de uma capacidade de observação muito perspicaz. Sim, já deu para ver como esta personagem me fascina e me comove.

 

Mas não é nada disto que sobressai na adaptação de Zeffirelli. Ao realizador (encenador operático) só lhe interessam as desventuras de uma criaturinha abandonada à sua sorte num orfanato e posteriormente o seu encontro com o herói da fita. Em Zeffirelli não é só a personagem Jane Eyre que é descaracterizada e desmembrada, também o Rochester vai pelo mesmo caminho. Um William Hurt que não se sente nada à vontade naquela pele, deve ter sido mesmo o seu pior papel de sempre no cinema. E Rochester também é uma das minhas personagens masculinas preferidas.

Tudo bem, tudo bem, o Rochester original, o genuíno, é um homem de mau feitio, carrancudo, de poucas palavras, magoado com um passado que não o larga, que não o deixa viver em paz e livremente. Foi traído pela própria família e pela sua ingenuidade. Além disso, não é um homem atraente e se há mulheres a gravitar à sua volta é apenas pela sua riqueza.

Mas Rochester não é só isso: é permeável à verdade quando a vê. É sensível o suficiente para perceber que Jane Eyre é uma criaturinha rara e fascinante. O seu olhar não se fica pela superfície, se fosse assim não se interessaria por ela nem perderia tempo a ouvir a sua opinião. E no livro as suas conversas são cheias de intensidade, quase provocação, de uma procura mútua, de um tatear, de saber o que o outro pensa... no fundo no fundo, a construção segura de uma amizade.

 

É isso que Jane e Rochester nos revelam aqui: como se inicia e constrói uma amizade, a relação humana mais difícil de destruir. Que se baseia muito mais na alma do que na mente, na ternura do que na paixão, embora eles não sejam nada platónicos. Este aparente paradoxo, alma aliada a uma atracção, é aliás o mais interessante na sua relação. O que se vai construindo entre eles são laços indestrutíveis. Embora uma das suas afinidades seja a mental (ambos gostam de ler e de saber, há neles a curiosidade intelectual, abrir os horizontes), o que os une é muito mais forte: são como irmãos gémeos, separados à nascença, que se reencontram.

Outra manifestação dessa forte ligação (e aqui lembro a irmã Brontë, a Emily, a dos Monte dos Vendavais) é a sua comunicação à distância: Jane ouve-o chamar o seu nome e diz-lhe para esperar por ela. Mas Zeffirelli corta tudo o que é essencial para tornar tudo muito operático, retira-lhe a dimensão mais profunda.

 

E nem me referi ainda ao corte mais surpreendente de Zeffirelli: o desespero e a caminhada de Jane, depois da revelação mais trágica para si, até ser descoberta por um primo afastado e ter sido acolhida na sua casa onde vive com as duas irmãs: uma nova família para Jane, a sua única família como se irá descobrir depois. Salta também a sua experiência na reanimação da escola daquele lugar, pormenor fundamental para se perceber a personagem: Jane gosta de ensinar, vê a educação como a actividade mais nobre à face da terra, a que dá dignidade, a que pode melhorar a vida de alguém. E salta a relação possível com o primo, no plano do companheirismo missionário. Esse conflito interior é fundamental. É que Jane, tal como Rochester, não é um ser platónico. Amam com todas as células visíveis e invisíveis, terrenas e aladas. Concordo, já me entusiasmei.

 

E ainda não referi os actores. O William Hurt como Rochester, já o disse, um desastre. Tem de ser um actor inglês, ou vá lá vá lá irlandês ou escocês, ou até mesmo um australiano, mas um americano, por mais que tente entrar na pele de Rochester, não consegue.

A Jane Eyre - Charlotte Gainsbourg nem está mal de todo: fisicamente está mesmo perfeita para o papel. E bem dirigida podia ter-se revelado uma Jane muito credível, aquele ar triste, frágil, autêntico e afectivo é mesmo comovente. Deveria ter sido filmada a calcorrear caminhos e terrenos, esse lado andarilho da Jane tinha de ser evidenciado.

O encontro Jane Eyre - Rochester era ao fim da tarde, com nevoeiro, não se via quase nada. E Rochester foi rude e antipático com ela. Será assim ainda por muito tempo, suavizando as suas maneiras a pouco e pouco. Jane é a única que lhe fala de igual para igual, não se deixa intimidar por ele. Isso também não é evidenciado aqui. A casa é austera, talvez mais austera do que neste filme. Mas Jane sente-se em casa. Sim, Gainsbourg poderia fazer uma Jane melhor, se melhor dirigida.

A Mrs. Fairfax está perfeita. E a própria miúda, perfeita. Assim como a Billy Whitelaw - Grace Poole.

Já a Elle Macpherson - Blanche Ingram, não. Nisso os ingleses são muito exigentes, há uma fidelidade à época que querem retratar. E não é só vestir a fatiota da época, é a linguagem, a postura, os gestos.

E não é que não identifiquei a Maria Schneider no papel da Bertha, a louca? Só agora, ao verificar os nomes dos actores, é que a vi.

 

Bem, verdade seja dita, não é só Zefirelli a dar amolgadelas fatais em obras literárias. Destaquei esta porque foi meter-se precisamente com uma das minhas obras preferidas e duas das minhas personagens preferidas. Voltarei ao tema a propósito de grandes amolgadelas cinematográficas. E não é só em obras literárias, é nos remakes. Mas hoje falei do que me arrepiou: o Zeffirelli e a Jane Eyre.

 

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publicado às 16:58


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